quinta-feira, 30 de julho de 2009

UMA VEZ

Ele chegou primeiro e ansioso me ligou. Ignorei a chamada porque já estava à caminho.Ele me aguardava.Não nos conhecíamos ainda presencialmente, e eu estava indo a seu encontro. O destino era um velho sobrado, do qual eu passava diariamente e sempre o olhava admirada.Gostava de imaginar como era dentro dele. As grandes janelas, portas pesadas, o ar envelhecido... Isso me fascinava e pensava em coisas que já aconteceram ali.Queria saber como era lá dentro. O cheiro, a textura das paredes. Tudo.Imaginava-me naquele lugar. Sempre.

E lá estava eu. Ele me aguardava.O estranho de minhas madrugadas virtuais.Sem nome e sem face. A porta principal estava entreaberta, eu a cruzei já me despindo. Sentia a pele arrepiar a cada passo. O cheiro de mofo não me incomodava, nem mesmo a penumbra, que parecia transfixar minha pele a cada passo dado.O silêncio tomava conta do lugar e eu apenas ouvia o silêncio sonoro da noite. Do alto da escada ele me esperava. Seu nome não me interessava. Sua idade muito menos. O que sentia. Nada.Não queria saber nada sobre ele. Eu só queria estar ali.

Enquanto ele me devorava eu olhava as paredes, o teto, sentindo o cheiro dele e de tudo ao meu redor. Suas mãos quentes e nervosas eram como as paredes empoeiradas derrubando meu corpo no meio do caos que eu sempre quis.O membro ereto era como o chão duro me machucando.Sua respiração ofegante era como o som ensurdecedor do vento. Eu não conhecia aquele homem, e não voltaria mais a vê-lo.Deixei que todo seu desejo me consumisse, enquanto o meu penetrava na minha retina. Porque eu só queria estar ali.

2 comentários:

  1. Um texto com tua marca, Agnes, vivo de intensidade, intenso de vida, na fronteira da morte.

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